
quanto sangue índio já jorrou aqui
e de tuas janelas não verás país nenhum
se do outro lado da cidade
a fome sangra
do outro lado da cidade
a sede mata
e não tem poema
nem rima abstrata
é realidade nua e crua
crianças se alimentam
no esgoto a céu aberto
a lei é do mais esperto
aqui vende-se até nome de rua
e compra-se também
voto consciência liminares
laranjas fantasmas liberdade
nada mais espanta
nada mais assusta
vende-se tudo nos mercados
da esquina
a dor do parto
e a virgindade das meninas
vende-se compra-se
do pudor a vaidade
vende-se tudo caro amigo
aqui vende-se até
as entranhas da cidade
arturgomes
VI Semana Imperatrizense do Livro traz grandes nomes da Literatura
22 de outubro de 2008
VI Feira do Livro Imperatriz-Maranhão
Está na cidade de Imperatriz, desde o dia 15 de outubro, o poeta carioca, das terras dos índios Goytacazes, Artur Gomes, que veio a convite da escritora e acadêmica Lília Diniz, para participar da VI Semana Imperatrizense do Livro e da I Feira Regional do Livro, que acontece no período de 20 a 25 de outubro, na praça da Cultura e em outros locais da cidade.
O poeta já atravessou e banhou nas águas do rio Tocantins, semeou versos no quintal do também poeta Zeca Tocantins e já esteve também na Escola Técnica Agro-extrativista, no Povoado Pé de Galinha (ETA), no município de João Lisboa.
Os escritores Arthur Gomes e João Paulo Cuenca participam de evento em Imperatriz
Poeta, ator e artista gráfico, acumula uma bagagem de 35 anos de carreira com prêmios nacionais e internacionais em teatro, música, literatura e artes gráficas. Seu livro “Couro Cru & Carne Viva” foi premiado no Concurso Internacional de Poesia da Universidade de Laval-Quebec, Canadá, em 1987. Poemas do seu “Suor & Cio” são partes dos objetos de estudo para tese de Doutorado em Antropologia do Historiador Jorge Santiago, em Paris.
Em 1998, criou e dirigiu os espetáculos “Brecht Versus Suassuna” e “Mendigos Jantam Brecht”, ambos montados com alunos da Oficina de Artes Cênicas do Cefet - Campos, com textos de Ariano Suassuna e Bertolt Brecht. Em 2000, lançou “Brazilírica Pereira”, “A Traição das Metáforas”, sua primeira obra de ficção e, em 2002, o CD “Fulinaíma - Sax, blues e poesia”, com Dalton Freire, Luís Ribeiro, Naiman e Reubes Pess, parceiros com quem apresenta espetáculos em espaços culturais de várias cidades brasileiras.
Outro convidado do evento é o escritor carioca João Paulo Cuenca, um dos grandes nomes da nova literatura brasileira. Formado em Economia, há dois anos é cronista semanal do jornal O Globo, onde mantém uma página no suplemento Megazine. Já passou por Tribuna da Imprensa e Revista TPM. Suas crônicas têm um quê de João Antonio e Antonio Maria – entre outras influências confessas: cuidadosas observações do cotidiano e das ruas cariocas.
Escreveu “O Dia Mastroianni” (Agir, 2007), “Corpo Presente” (Planeta, 2003), além de “Parati, para mim” (Planeta, 2003), este último em co-autoria, quando foi um dos escritores convidados da I Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro. Seu segundo livro foi recentemente traduzido para o italiano e o autor esteve em Roma para o lançamento de Una giornata Mastroianni. O título, uma homenagem ao ator italiano, traz uma aventura de dois amigos em busca de prazer – ao leitor, o prazer da ótima prosa de Cuenca, em cujo Corpo Presente, todos os personagens se chamam Carmen e Alberto.
ALGUMA POESIA
I
Não. Não bastaria a poesia
Deste bonde
Que
despenca lua
Nos meus cílios.
Num trapézio de pingentes
Onde a lapa
Carregada de pivetes nos seus arcos
Ferindo a fria noite como um tapa
Vai fazendo amor por entre os trilhos.
II
Não. Não bastaria a poesia cristalina
Se rasgando o corpo
Estão muitas meninas
Tentando a sorte
Em cada porta de metrô.
E nós poetas desvendando palavrinhas
Vamos dançando uma vertigem
No tal circo voador.
III
Não. Não bastaria todo riso pelas praças
Nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
Com os pardais despedaçando nas vidraças
E as mulheres cuidando dos seus filhos
IV
Não bastaria delirar Copacabana
E esta coisa de sal que não me engana
A lua na carne navalhando
Um charme gay
E um cheiro de fêmea
No ar devorador
Aparentando realismo hiper-moderno,
Num corpo de anjo
Que não foi meu deus quem fez
Esses gosto de coisa do inferno
Como provar do amor
No posto seis.
Numa cósmica e profana poesia
Entre as pedras e o mar do arpoador
Uma mistura de feitiça e fantasia
Em altas ondas
De mistérios que são vossos.
V
Não. Não bastaria toda poesia
Que eu trago em minha alma
Um tanto porca,
Este postal com uma imagem
Meio Lorca:
Um bondinho aterrizando lá na Urca
E esta cidade deitando água
Em meus destroços
Pois se o cristo redentor
Deixasse a pedra
Na certa nunca mais
Rezaria padre-nossos
E na certa só faria
Poesia com os meus ossos.
TERRA DE SANTA CRUZ
Ao batizarem-te
Deram-te o nome: Puta
Posto que a tua profissão
É abrir-te em camas
E dar-te em ferro
Ouro
Prata
Rios, peixes, minas, mata
Deixar que os abutres
Devorem-te na carne
O derradeiro verme.
RETÓRICA
Salve lindo pendão que balança
Entre as pernas
Abertas da paz.
Sua nobre sifilítica herança
Dos rendez-vous
De impérios atrás.
TROVA
Meu coração é tão hipócrita
Que não janta
E mais imbecil
Que ainda canta:
Ou
Viram no Ipiranga
Às margens plácidas
Uma bandeira arriada
Num país que não levanta,
ECO LÓGICA
Fosse o Brasil
Mulher das amazonas
Caminhasse passo a passo
Disputasse mano a mano.
Guardasse a fauna e a flora
Da fome dos tropicanos.
Ouvisse o lamento dos peixes
Jandaias, araras e tucanos
Não estaríamos assim condicionados
Aos restos do sub-humano.
TERCEIRO MUNDO
Sonho rola no parque
Sangue ralo no tanque
Nada a ver com tipo dark
E muito menos com punk
Meu vício letal é baiafro
Com ódio mortal de yanque.
SUB/VERSÃO
Só desfraudando
A bandeira tropicalha
É
Que a gente avacalha
Com as chaves dos mistérios
Dessa terra tão servil.
Tirania sacanagem safadeza
Tudo rima uma beleza
Com a própria/mãe que nus pariu.
ART POP
Macunaíma
Ilumina o lobisomem
Na selva de new York
O rato roeu a roupa
Do gênio da art pop
Nosso samba popular
Não precisa ser star
Cantando rock.
GELÉIA GERAL
A coisa por aqui
Não mudou nada
Embora sejam outras
Siglas no emblema
Espada continua a ser espada
Poema continua a ser poema
MAGIA
Quando meto pés
Em tuas matas
Selvagem índio Pássaro animal
Devasto céus sem ter limites
Com poesia sobrenatural
TROPICALHA
Vendo a lua leviana
No império das bananas
Papagaios periquitos
Graviola
A fruta eu chupo morena
Semente eu planto cigana
Na selva pernambucana
Nossa língua deita e rola.
Artur Gomes foi o criador da Mostra Visual de Poesia Brasileira, em 1983, e também do Projeto Retalhos Imortais do SerAfim – Oswald de Andrade Nada Sabia de Mim, realizado em Campos dos Goytacazes (junho 95), Ouro Preto (julho 95), São Paulo (outubro 95) e São Caetano do Sul (novembro 95). Criador do seu Ateliê de Performance, ele viajou por diversas cidades do país com um espetáculo de Dança.Teatro.Poesia, ao lado da bailarina Nirvana Marinho (Curso de Dança da Unicamp), sendo ainda coordenador e participante de diversos movimentos teatrais e poéticos. Ele é autor dos livros: Couro Cru & Carne Viva foi premiado no Concurso Internacional de Poesia da Universidade de Laval-Quebec, Canadá, em 1987; o Suor & Cio são partes dos objetos de estudo para tese de Doutorado em Antropologia do Historiador Jorge Santiago, em Paris, dentre outros livros. Em 2000, lançou Brazilírica Pereira, A Traição das Metáforas, sua primeira obra de ficção e, em 2002, o cd Fulinaíma - sax, blues e poesia, com Dalton Freire, Luís Ribeiro, Naiman e Reubes Pess.