Friday, July 03, 2009



Virada Cultural Solidária

Blog IN Rock, Blues, MPB, Reggae, Teatro, Poesia & Baratos Afins
Homenagem ao Avyador do Rock Luizz Ribeiro

Dia 12 julho, domingo, a partir das 15h
Dia 13 julho, segunda-feira, a partir das 20h
(Dia Internacional do Rock)
Local: Área atrás do Shopping Estrada
Será uma verdadeira maratona musical com a participação de diversas bandas e músicos da região. No local estará sendo comercializado os CDs da Banda Avyadores do Brazil, com renda destinada ao tratamento de saúde do músico Luiz Ribeiro.

Luizz Ribeiro por Luiz Ribeiro
- Sou músico, entre outras atividades e formação como a maioria dos brasileiros. Tive a honra de participar da formação lá nos anos 70 da primeira rock band da minha aldeia, a famigerada Lúcia Lúcifer em Campos dos Goytacazes, um lugar onde o esporte favorito é falar mal da mesma, e olha que não faltam motivos... No entanto é linda a visão da planície quando se volta pra casa (pergunte pra Alice ou pra Mary)... Falo porque gosto e assumo o suprassumo dessa bagunça organizada chamada rock'n'roll. O legal é que as coisas mudam sempre, e no começo, quando tocava guitarra, procurando bends de blues com fuzz-o, muitas pessoas diziam que não podia,era barulho-mau-gosto-antibrasileiro e alguns nomes feios. Hoje ganho um dinheirinho (papel pintado é reconhecimento) fazendo a mesma coisa... Creio que eu estava certo. Não acredito em música pela música, ela é um código de comunicação muito poderoso. Tem que ter atitude, sinceridade e não pode faltar coragem, porque há de se pagar o preço. Os "certinhos" que me perdoem ou não, mas tesão musical é fundamental!

Quem tem tesão não tem tédio, sexo diário é o melhor remédio, vamos partir pra cima senão a gente fica por baixo (Eliakin Rufino)

Nação Goytacá
http://goytacity.blogspot.com/
Associação dos Blogueiros Desocupados

Thursday, July 02, 2009



Urbanidades
Mostra de Cine Vídeo Poesia
Curtas produzidos e dirigidos por Artur Gomes
Dia 4 julho das 14 às 15:00h
Local: Espaço Multimídia – Sesc Campos

LeminskiArte da Palavra Em Cena
Artur Gomes performance multimídia
Dia 10 julho 21:00h Belo Horizonte
Belô Poético veja programação aqui:
http://www.belopoetico.com/

Wednesday, July 01, 2009

Jura secreta 43

afora em mim grafitemas
nenhuma figuralidade
frutas legumes verduras
quem cala a fala consente
houve um dia que a dita/dura
calou a fala da gente

grafito em tua carne de pedra
medusa de sete patas
poema de sete cabeças
miragens do amor que enlouqueça
apóstolos na santa ceia

miró brincando de circo
de olho na lua cheia

poema/invenção/poema poema/invenção/poema inventar o nada por de trás da tarde se é savary em olga tudo é quanto arde se em césar castro anjo antropofágico radiografando o trágicono corpo do pivete gol de letra do moleque federico serAfim
reinventar enfim com ferocidade como fogo em brasa pra não morrer de tédio por morar numa cidade onde até a minha casa não mora mais em mim.

Tuesday, June 23, 2009










Riverdies Hoje No Teatro Odisséia
Dia 23 junho 20:00h
Rua Mem de Sá – Lapa – Rio de Janeiro

Alex Melch – vocal
Fil Buc – guitarra
Leo Graterol – guitarra
Gui Farizelli – baixo
Vítor - batera

Riverdies – Still Remans
http://www.youtube.com/watch?v=3k0FRyoPoKo&feature=channel_page




PátriA(r)mada

só me queira assim caçado
mestiço vadio latino
leão feroz cão danado
perturbando o teu destino

só me queira enfeitiçado
veloz macio felino
em pêlo nu depravado
em tua cama sol a pino

só me queira encapetado
profanando àqueles hinos
malandro moleque safado
depravando os teus meninos

só me queira desalmado
cão algoz e assassino
duplamente descarado
quando escrevo e não assino

Artur Gomes
http://goytacity.blogspot.com/
Mamãe é Brega Mas é Xique
http://mamabrega.blogspot.com/




Friday, June 19, 2009



Mataram a Poesia Artur
Gomes Jura Que Não Foi ele

Um poema zil

ma
ma
a floresta
rala
as araras
raras
os papagaios
nada
quero descobrir a nova fala dentro das penas de um bem-te-vi
dentro
dentro as escamas de um peixe espada
no cio das onças tigres lontras javalis e leopardos
quero minha nova fala ma ma mata a dentro
mesmo quando urbano sempre urbano entro
em cada carne em cada pedra onde subo pau a pique
Nick
a pedra é rock
a pedra é toque
a pedra é barro duro
e triturada é pó
faz tempo muito tempo
que não ouço
joão Gilberto
e ando tão desafinado
que o dente lambe a fala
e escava a lavra nova
faz tempo muito tempo
que não falo ave palavra
ave profana
ave cio
que não vejo o arrepio
de um pássaro selvagem
logo pós o pós mergulho
em algum canto
do rio
essa selva estraçalhada
faz tempo muito tempo
que não vejo
em mim cidade
goytacazes
goyta city
que não vejo em alvoroço
alegria quando festa
quando farra fausto
sol de verão
poesia e primavera
tudo o que ja foi
já era
mesmo o hoje
uma quimera
uma espera
insana e falsa
de um presente
que não vem
de um futuro absinto
mas que saber o que sinto
nada sinto
sinto muito
quer dizer
eu muito minto
minto muito
tudo é pouco
e o buraco
quando esgoto
na urbanidade do que falo
com os dentes na ferida
aqui tem tudo
falta vida
e a poesia foi vendida
e o poema
foi pro ralo

Artur Gomes
http://goytacity.blogspot.com/


Tuesday, June 16, 2009

Fundação Iberê Camargo - Programação

O Programa Educativo realiza, no dia 20 de junho, novo encontro de capacitação de professores, desta vez para Dédale – uma filme-instalação de Pierre Coulibeuf. O objetivo é apresentar o projeto do artista e cineasta francês e dar subsídios aos professores para trabalhar o conteúdo com seus alunos. Haverá palestra do curador, Gaudêncio Fidelis, visita mediada e oficina.A Bolsa Iberê Camargo está com as inscrições abertas. Chegando a sua nona edição, levará artistas para residências no Blanton Museum of Art / The University of Texas at Austin, nos Estados Unidos, e no RIAA – Residencia Internacional de Artistas en Argentina. Participe!Ao comemorar o primeiro aniversário de sua nova sede, a Fundação apresenta sua programação para o ano de 2010, que inclui mostras de Oswaldo Goeldi, Lasar Segall, Mira Schendel e Léon Ferrari, além de concretistas sul-americanos e de uma retrospectiva dos vencedores da Bolsa Iberê Camargo.A Fundação Iberê Camargo doou, no final do mês de maio, 2.700 unidades de material didático para a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul. Elas serão distribuídas para todas as escolas estaduais, que, em 2009, estão introduzindo a obra do artista em suas aulas.Este é o último fim-de-semana da programação especial do Educativo, que realiza visitas mediadas e oficinas abertas ao público. Não perca! Exposições em cartaz na Fundação Dédale: uma filme-instalação de Pierre Coulibeuf, obra inspirada pelo universo de Iberê Camargo, está em cartaz no quarto andar da Fundação. Com três projeções em vídeo e uma série de fotografias, apresenta ligações entre a obra do artista e o prédio projetado por Álvaro Siza, por meio da relação com a figura mitológica de Dédalo e o labirinto do Minotauro. A curadoria é de Gaudêncio Fidelis.Iberê Camargo: um ensaio visual é a exposição do Acervo em cartaz na Fundação. Inteiramente dedicada ao pintor gaúcho, a mostra marca a primeira curadoria estrangeira na instituição, assinada pela argentina María José Herrera. As obras estão divididas em três núcleos: o olhar para a forma, o olhar para o homem e o olhar para a natureza.

Na sala de Acervo Permanente, uma nova curadoria leva ao público algumas das obras usadas por Coulibeuf nas filmagens de Dédale, oferecendo aos visitantes contato com o período da produção de Iberê que encantou o cineasta.
Horário de funcionamento:De terça a domingo, das 12h às 19h; quintas até às 21h.

Fundação Iberê Camargo
Av. Padre Cacique 2.00090810-240 Porto Alegre RS
Brasiltel [55 51] 3247-8000
www.iberecamargo.org.br site@iberecamargo.org.br

Sunday, June 07, 2009


O poeta da estranheza
Poemas inéditos de Paulo Leminski
mostram invenção de um criador marginal
Pedro Maciel

“o pauloleminski/ é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau a pedra/ a fogo a pique/ senão é bem capaz/ o fdp/ de fazer chover/ em nosso piquenique”.
Esse texto do poeta curitibano traduz um pouco a vida que levou Leminski (1945-1989). Bebeu em todas as fontes. Escreveu ensaios, letras de música, traduziu Bashô e Homero, exerceu o jornalismo, viveu nos tempos das liberações. Polêmico e inovador. Um autor que se perguntava para que servem os poetas?
Leminski e Ana Cristina César são os dois mais importantes poetas da geração de 70. Geração marginal. Aliás, a maioria dos poetas da geração 70, descobertos pela ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda, não é de bons artesãos, não domina o instrumento e não sabe do que se trata o passado e por isso não levam adiante “o que estava jóia”. São apenas ignorantes, pensava Leminski.

No artigo “Tudo, de novo”, Folha de São Paulo (março de 1983), o poeta anota que “uma das grandes novidades é que o poema ficou portátil. Leve de carregar. Grafitável, numa palavra. Nisso, puxou por vários dos seus avós: Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, antropólogos em geral. Ou aquele Drummond angloautomobilístico dos anos 30: Stop./ A vida parou. Ou foi o automóvel?”.

Leminski era como o Fausto de Goethe. Preferiu viver como um estranho. O ex-estranho, Editora Iluminuras, é o título da última coletânea de poemas inéditos. Ainda falta publicar contos, ensaios e uma novela. O poeta multimídia era um estranho em sua própria terra. Um estrangeiro. Um homem do mundo morando no interior do Brasil. No poema o ex-estranho um breve auto-retrato:

“passageiro solitário/
o coração como alvo/
sempre o mesmo, ora vário/
aponta a seta, Sagitário/
para o centro da galáxia.”

Leminski esteve no mundo em busca de aventura. O que importava era ter a vida na mão. Saber de cor e salteado os truques pra se levar a vida. Essa vida tão falada e banal. Mas Leminski queria a vida também escrita. Reescritura de vida. Reescreveu as lendas e ecos dos emigrantes poloneses do sul brasileiro. Incorporou a voz sofrida e cantada do povo negro da África. Desta miscigenação nasceu a poesia de Paulo Leminski. Poesia que a gente encontra em toda parte.

Talvez o livro mais impressionante de Leminski seja o Catatau. Texto fragmentado, tendente ao barroco. Fala a língua de James Joyce e Guimarães Rosa. É um rosário de preces contemporâneas do francês René Descartes. O poeta imagina a vinda do filósofo ao Brasil durante o período das invasões holandesas. No livro o filósofo é chamado de Renatus Cartesius e mora na Recife do século XVII. O livro não tem roteiro ou enredo. É uma fábula exemplar. Um livro sem estilo.

Leminski à maneira borgiana recriou muitas fábulas. Reescreveu o mundo que poderia ter sido e não foi. Reinventou o texto para contextualizar, contestar, protestar. O texto de Leminski é quase sempre um protesto. Um pré-texto. Texto que mais parece uma “proesia” sonora, segundo o poeta Carlos Ávila, “cheia de invenções léxicas trabalhadas artesanalmente no melhor sentido joyceano-macarrônico, procurando dar continuidade às conquistas de Oswald, Rosa e Haroldo de Campos, indo muito além dos contistas e romancistas em cena atualmente no Brasil”.

Leminski era um poeta que viveu praticamente à margem em nossos tempos pós-modernos. Poeta de um rigor sintético admirável e ao mesmo tempo caprichoso e relaxado. O poeta que mais se aproxima de Torquato Neto. O Nosferatu. Poeta popular, pop, para tocar no rádio. Leminski homenageou Torquato num belo poema:

“Coroas para Torquato/ um dia as fórmulas fracassam/
a atração dos corpos cessou/
as almas não combinam/
esferas se rebelam contra a lei das superfícies/
quadrados se abrem/
dos eixos/ sai a perfeição das coisas feitas nas coxas/
abaixo o senso de proporções/
pertenço ao número/
dos que viveram uma época excessiva”.

Romântico e utópico: ”Vai vir um dia/ quando tudo o que eu diga/ seja poesia”. Leminski era também um poeta com consciência intersemiótica. Vivia com a cabeça ligada no planeta e os pés plantados na terra de nascimento:

“Um dia/
a gente ia ser homero/
a obra nada menos que uma iliada/
depois/ a barra pesando/
dava pra ser aí um rimbaud/
um ungaretti um fernando pessoa qualquer/
um lorca um éluard um ginsberg/
por fim/ acabamos o pequeno poeta de província/
que sempre fomos/
por trás de tantas máscaras/
que o tempo tratou como as flores”.

Poemas do livro “O ex-estranho”, Paulo Leminiski

INVERNÁCULO
(3)

Esta língua não é minha,
Qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
A palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
Vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longíngua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
Eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
eu já disse muito.

Tenho a impressão
que já disse tudo.
E tudo já foi tão de repente.
desastre de uma idéia
só o durante dura
aquilo que o dia adianta adia
estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
e coisas alguma me sacia

formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem,
e meu sonho dorme

fome da china fome da índia
fome que ainda não tomou cor
essa fúria que quer
seja lá o que flor
__________________________________________________


RIMO E RIMOS

Passarinho parnasiano,
nunca rimo tanto como faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimo, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
se amar fosse fácil.

Perguntaram por que rimo tanto,
responder que rima é coisa rara.
O raro, rarefeitamente, pára,
como pára, sem raiva,qualquer canto.
Rimar é parar, parar para ver e escutar
Remexer lá no fundo do búzio
aquele murmúrio inconcluso,
Pompéia, idéia, Vesúvio,
o mar que só fala do mar.

Vida, coisa para ser dita,
como é dita este fado que me mata.
Mal o digo e já meu dito se conflita
com toda a cisma que, maldita, me maltrata.

_________________________________________________________

leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

___________________________________________________________

Trevas.
Que mais pode ler
um poeta que se preza?

__________________________________________________________

depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar

________________________________________________________

Poemas do livro “Caprichos & Relaxos”, Paulo Leminski

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha


____________________________________


parar de escrever
bilhetes de felicitações
como seu eu fosse camões
e as ilíadas dos meus dias
fossem lusíadas,
rosas, vieiras, sermões


_____________________________________

Poemas do livro “Polonaises”, Paulo Leminiski

um poema
que não se entende
é digno de nota

a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota
_______________________________

para a liberdade e luta
me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu
me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

______________________________________


lembrem de mim
como um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

______________________________________

Poemas do livro “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”, Paulo Leminski


apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

_____________________________



entro e saio

dentro
é só ensaio

________________________________

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

_______________________________


confira
tudo que respira
conspira

___________________________

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

_______________________


Poemas do livro “Ideolágrimas”, Paulo Leminski

na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir

__________________________________________

esquentar numa fogueira
o frio que sinto
ao contemplar estrelas?

____________________________

cabelos que me caem
em cada um
mil anos de hailkai

__________________________

Poemas do livro “SOL-TE”, Paulo Leminski

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima

___________________________________

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar

_________________________________

Dois poemas publicados em jornais


M, DE MEMÓRIA

Os livros sabem de cor
Milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.

Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.

Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.

Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.

Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.


PLENA PAUSA

Lugar onde se faz
O que já foi feito,
branco da página,
soma de todos os textos,
foi-se o tempo
quando, escrevendo,
era preciso
uma folha isenta.

Nenhuma página
jamais foi limpa.
Mesmo a mais Saara,
ártica,significa.
Nunca houve isso,
uma página em branco.
No fundo, todos gritam,
pálidas de tanto.

____________________________

5 Poemas de Bashô traduzidos por Paulo Leminski

acende a luz de leve
eu lhe mostro uma beleza
a bola de neve

do orvalho
nunca esqueça
o branco gosto solitário

o mar escurece
a voz das gaivotas
quase branca

casca oca
a cigarra
cantou-se toda

velha lagoa
o sapo salta
o som da água

___________________________

Carta de Paulo Leminski para Régis Bonvicino; do livro Uma carta uma brasa através”
(1976-1981)
out / 77


EPÍSTOLA A RÉGIS

Paulo, pequeno irmão,
da pequena cidade de Curitiba,
ilha de certeza
cercada de pequenos problemas por todos os lados,
a Régis, grande irmão,
na grande cidade de São Paulo,
cercado por um grande problema

.....................................

pare de se lamentar
como uma velha carpideira siciliana

esse teu medo de ter secado tua fonte de poesia
é apenas para nos deixar preocupados

eu já te disse
PARA SER POETA
TEM QUE SER MAIS QUE POETA

v. tem que ser um monte de outras coisas mais
senão daonde?
v. vai acabar fazendo literatura de literatura
v. tem que esculhambar mais
pintar por fora das molduras

EXISTENCIALMENTE

esculhambe-se vire-se altere dê alteração
considere a possibilidade de ir pro Japão
rejeite o projeto de felicidade
q a sociedade te propõe

eu sei
você é paulista
mas ser paulista não é tudo

rompa
fique mais irregular
seja mais inconveniente
é a linguagem que está a serviço da vida
não a vida a serviço da linguagem

a linguagem vem
sai na urina
acontece

fazer poemas não é a coisa mais importante
mas para quem faz é
e tem que ser assim

o signo é nosso destino
nossa desgraça e nossa glória

uma aranha sempre sabe
que depois desta teia
virá outra teia e outra teia e outra
uma aranha não duvida

v. vê
não há pressa: Mallarmé deixou meia
dúzia de coisas
augusto idem
não se importe com q a freqüência/ a fecundidade
/a abundância
uma década pode esperar um bom poema

____________________________________________________
Publicado no caderno “Idéias/Livros”, Jornal do Brasil, 07 de dezembro de 1996
Pedro Maciel é autor do romance “A Hora dos Náufragos”, Ed. Bertrand Brasil




o avesso do avesso do avesso

olhando o suor nos corpos do edifício
quanto sangue índio já jorrou aqui
e de tuas janelas não verás país nenhum
se do outro lado da cidade
a fome sangra
do outro lado da cidade
a sede mata
e não tem poema
nem rima abstrata
é realidade nua e crua
crianças se alimentam
no esgoto a céu aberto
a lei é do mais esperto
aqui vende-se até nome de rua
e compra-se também
voto consciência liminares
laranjas fantasmas liberdade
nada mais espanta
nada mais assusta
vende-se tudo nos mercados
da esquina
a dor do parto
e a virgindade das meninas
vende-se compra-se
do pudor a vaidade
vende-se tudo caro amigo
aqui vende-se até
as entranhas da cidade

arturgomes

VI Semana Imperatrizense do Livro traz grandes nomes da Literatura
22 de outubro de 2008
VI Feira do Livro Imperatriz-Maranhão

Está na cidade de Imperatriz, desde o dia 15 de outubro, o poeta carioca, das terras dos índios Goytacazes, Artur Gomes, que veio a convite da escritora e acadêmica Lília Diniz, para participar da VI Semana Imperatrizense do Livro e da I Feira Regional do Livro, que acontece no período de 20 a 25 de outubro, na praça da Cultura e em outros locais da cidade.
O poeta já atravessou e banhou nas águas do rio Tocantins, semeou versos no quintal do também poeta Zeca Tocantins e já esteve também na Escola Técnica Agro-extrativista, no Povoado Pé de Galinha (ETA), no município de João Lisboa.

Os escritores Arthur Gomes e João Paulo Cuenca participam de evento em Imperatriz
Poeta, ator e artista gráfico, acumula uma bagagem de 35 anos de carreira com prêmios nacionais e internacionais em teatro, música, literatura e artes gráficas. Seu livro “Couro Cru & Carne Viva” foi premiado no Concurso Internacional de Poesia da Universidade de Laval-Quebec, Canadá, em 1987. Poemas do seu “Suor & Cio” são partes dos objetos de estudo para tese de Doutorado em Antropologia do Historiador Jorge Santiago, em Paris.
Em 1998, criou e dirigiu os espetáculos “Brecht Versus Suassuna” e “Mendigos Jantam Brecht”, ambos montados com alunos da Oficina de Artes Cênicas do Cefet - Campos, com textos de Ariano Suassuna e Bertolt Brecht. Em 2000, lançou “Brazilírica Pereira”, “A Traição das Metáforas”, sua primeira obra de ficção e, em 2002, o CD “Fulinaíma - Sax, blues e poesia”, com Dalton Freire, Luís Ribeiro, Naiman e Reubes Pess, parceiros com quem apresenta espetáculos em espaços culturais de várias cidades brasileiras.
Outro convidado do evento é o escritor carioca João Paulo Cuenca, um dos grandes nomes da nova literatura brasileira. Formado em Economia, há dois anos é cronista semanal do jornal O Globo, onde mantém uma página no suplemento Megazine. Já passou por Tribuna da Imprensa e Revista TPM. Suas crônicas têm um quê de João Antonio e Antonio Maria – entre outras influências confessas: cuidadosas observações do cotidiano e das ruas cariocas.
Escreveu “O Dia Mastroianni” (Agir, 2007), “Corpo Presente” (Planeta, 2003), além de “Parati, para mim” (Planeta, 2003), este último em co-autoria, quando foi um dos escritores convidados da I Festa Literária Internacional de Parati, no Rio de Janeiro. Seu segundo livro foi recentemente traduzido para o italiano e o autor esteve em Roma para o lançamento de Una giornata Mastroianni. O título, uma homenagem ao ator italiano, traz uma aventura de dois amigos em busca de prazer – ao leitor, o prazer da ótima prosa de Cuenca, em cujo Corpo Presente, todos os personagens se chamam Carmen e Alberto.



ARTUR GOMES Couro Cru & Carne Viva

ALGUMA POESIA

I
Não. Não bastaria a poesia
Deste bonde
Que
despenca lua
Nos meus cílios.

Num trapézio de pingentes
Onde a lapa
Carregada de pivetes nos seus arcos
Ferindo a fria noite como um tapa
Vai fazendo amor por entre os trilhos.

II

Não. Não bastaria a poesia cristalina
Se rasgando o corpo
Estão muitas meninas
Tentando a sorte
Em cada porta de metrô.

E nós poetas desvendando palavrinhas
Vamos dançando uma vertigem
No tal circo voador.


III

Não. Não bastaria todo riso pelas praças
Nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
Com os pardais despedaçando nas vidraças
E as mulheres cuidando dos seus filhos


IV

Não bastaria delirar Copacabana
E esta coisa de sal que não me engana
A lua na carne navalhando
Um charme gay
E um cheiro de fêmea
No ar devorador
Aparentando realismo hiper-moderno,
Num corpo de anjo
Que não foi meu deus quem fez
Esses gosto de coisa do inferno
Como provar do amor
No posto seis.

Numa cósmica e profana poesia
Entre as pedras e o mar do arpoador
Uma mistura de feitiça e fantasia
Em altas ondas
De mistérios que são vossos.


V

Não. Não bastaria toda poesia
Que eu trago em minha alma
Um tanto porca,
Este postal com uma imagem
Meio Lorca:
Um bondinho aterrizando lá na Urca
E esta cidade deitando água
Em meus destroços
Pois se o cristo redentor
Deixasse a pedra
Na certa nunca mais
Rezaria padre-nossos
E na certa só faria
Poesia com os meus ossos.


TERRA DE SANTA CRUZ

Ao batizarem-te
Deram-te o nome: Puta
Posto que a tua profissão
É abrir-te em camas
E dar-te em ferro
Ouro
Prata
Rios, peixes, minas, mata

Deixar que os abutres
Devorem-te na carne
O derradeiro verme.

RETÓRICA
Salve lindo pendão que balança
Entre as pernas
Abertas da paz.
Sua nobre sifilítica herança
Dos rendez-vous
De impérios atrás.


TROVA

Meu coração é tão hipócrita
Que não janta
E mais imbecil
Que ainda canta:
Ou
Viram no Ipiranga
Às margens plácidas
Uma bandeira arriada
Num país que não levanta,


ECO LÓGICA

Fosse o Brasil
Mulher das amazonas
Caminhasse passo a passo
Disputasse mano a mano.
Guardasse a fauna e a flora
Da fome dos tropicanos.
Ouvisse o lamento dos peixes
Jandaias, araras e tucanos
Não estaríamos assim condicionados
Aos restos do sub-humano.


TERCEIRO MUNDO

Sonho rola no parque
Sangue ralo no tanque
Nada a ver com tipo dark
E muito menos com punk
Meu vício letal é baiafro
Com ódio mortal de yanque.


SUB/VERSÃO

Só desfraudando
A bandeira tropicalha
É
Que a gente avacalha
Com as chaves dos mistérios
Dessa terra tão servil.

Tirania sacanagem safadeza
Tudo rima uma beleza
Com a própria/mãe que nus pariu.


ART POP

Macunaíma
Ilumina o lobisomem
Na selva de new York
O rato roeu a roupa
Do gênio da art pop
Nosso samba popular
Não precisa ser star
Cantando rock.


GELÉIA GERAL

A coisa por aqui
Não mudou nada
Embora sejam outras
Siglas no emblema
Espada continua a ser espada
Poema continua a ser poema


MAGIA

Quando meto pés
Em tuas matas
Selvagem índio Pássaro animal
Devasto céus sem ter limites
Com poesia sobrenatural


TROPICALHA

Vendo a lua leviana
No império das bananas
Papagaios periquitos
Graviola
A fruta eu chupo morena
Semente eu planto cigana
Na selva pernambucana
Nossa língua deita e rola.

Artur Gomes foi o criador da Mostra Visual de Poesia Brasileira, em 1983, e também do Projeto Retalhos Imortais do SerAfim – Oswald de Andrade Nada Sabia de Mim, realizado em Campos dos Goytacazes (junho 95), Ouro Preto (julho 95), São Paulo (outubro 95) e São Caetano do Sul (novembro 95). Criador do seu Ateliê de Performance, ele viajou por diversas cidades do país com um espetáculo de Dança.Teatro.Poesia, ao lado da bailarina Nirvana Marinho (Curso de Dança da Unicamp), sendo ainda coordenador e participante de diversos movimentos teatrais e poéticos. Ele é autor dos livros: Couro Cru & Carne Viva foi premiado no Concurso Internacional de Poesia da Universidade de Laval-Quebec, Canadá, em 1987; o Suor & Cio são partes dos objetos de estudo para tese de Doutorado em Antropologia do Historiador Jorge Santiago, em Paris, dentre outros livros. Em 2000, lançou Brazilírica Pereira, A Traição das Metáforas, sua primeira obra de ficção e, em 2002, o cd Fulinaíma - sax, blues e poesia, com Dalton Freire, Luís Ribeiro, Naiman e Reubes Pess.